sábado, 13 de fevereiro de 2010

Eu te amaria


Eu te amaria se todas as estrelas lá no céu fossem verdadeiras.
Se todas as plantinhas do mundo precisassem de água.
Se todas as camisetas de botões tivessem botões.
Te amaria se os segundos fossem a essência que compõem os minutos.
Se um ano escorregasse rapidamente em doze meses e me deixasse velho a cada aniversário.
Te amaria se umas vezes o céu corresse azul e outras cinza.
Se de madrugada as rosas recebessem um visitante chamado Orvalho.
Eu te amaria até mesmo se os bebes nascessem sem dentes e alguns sem cabelo nenhum.

Leometáfora

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A estrutura da minha poesia

Eu preciso consumir técnicas e normas para ser entendido. Ser prolixo em meus pensamentos. Erudito em minhas lembranças. Fúnebres ou não, elas precisam ser resumidas na solidão única de uma frase ou as cores vivas de minhas palavras perderão o valor ante ao mundo. Porque aos conservadores, se não cubro o pontilhado que impuseram, as palavras figurarão como abstratas demais para serem arte. Nem comecei meu primeiro esboço, já me condenam a repetição. Pobre de mim que tenho uma péssima memória. Um desmemoriado pode ser um bom escritor? Onde se usa mesmo o gerúndio? Sei lá! A tensão de algumas palavras fogem ao rigor padrão. Desnudam-se elásticas e vivas. Tomando novas proporções, se molduram levemente a necessidade do quadro. Afinal transparecer rigidez não te dá a segurança de ser eficaz ou de ser inquebrável. Cambaleio tonto. Convido as idéias que se amontoaram timidamente ao redor. Terão que me perdoar da minha incapacidade para seguir regras. Elas precisam saber que as exclui porque não sei contar minha história com marionetes de uma língua. Minha inspiração é livre e tem voz própria. Não faço ventriloquismo com a poesia.

Leometáfora

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Desculpa então!

Desculpa então. O sonho. A ilusão. Desculpa então. O desejo. O carinho excessivo. Os frases tão melosas. As ambigüidades. Os incompassos da vida. Desculpa então o meu recolhimento do mundo, só para te adorar. Os lugares que não irei, só pra ficar te esperando. Os livros que não lerei, pois estarei te escrevendo. Desculpa, eu ordeno ou imploro? Porque gostar de alguém que não gosta da gente tem que
ser tão estupidamente doentio?

Leometáfora

O Branco Ratinho

O amor é como um ratinho branco escondido no telhado.
Bonitinho, inocente. Mas que vai lentamente fazendo buracos dentro da gente. Deixando espaços vazios.
Lembranças incompletas. Saudades indetermináveis.
Vai deixando uma sede medonha do desconhecido.
E aí. No dia fatídico de uma tempestade, porque as tempestades sempre vêm mais cedo ou mais tarde,
estamos sob a chuva. Mortos de frio e sem proteção.
E o ratinho esta ali sorridente, inocente, bonitinho. Pronto para o novo telhado que ousarmos construir.

Leometáfora

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não me ames

Não me ames. Por maior que pareça ou de fato seja o meu amor por você, não me ames. Não resguardes seu tempo a pensar em mim. Não fantasie meus beijos sedentos e inebriados. Não desejes meu calor, nem meu cheiro em teus lençóis. Por mais que pareça óbvio e certo estar ao meu lado, resista. Não é que eu não queira, é que não mereço. Não mereço tua luz me inundando de esperanças. Não mereço a alegria de tuas mãos em minha pele. Estou sujo. Sujo das verdades que descobri. Incapaz de caminhar ao teu lado por saber que a estrada é um emaranhado de incertezas que atraem os fracos a se desviarem, e sei antes de tudo o quanto sou fraco. Ao findar dessa carta, talvez ao menos eu tente implorar-te que me deixe ficar. Porém não agora, enquanto estiveres chorando. Vou querer te provar com algumas de minhas fórmulas preferidas que eu sou a sua melhor escolha. Mas não se iluda, estou mentindo. Quando chega a noite, eu nem mesmo sei pra onde ir, fico olhando as estrelas e esperando um milagre que sarcasticamente sei que não virá. Porque não sou tolo minha doce menina. Porque por mais que eu tenha tentado sê-lo, não sou. As horas são cruéis quando nós temos algumas das respostas mais difíceis em nossa mente.Hoje já não sou o rapaz que te colocaria no colo e ficaria extasiado por tanta beleza. Nem perderia o controle só porque você tem um dos olhares mais lindos que já vi. Tenho a neutralidade de um lago. Sem tormentas. Sem arrebentações. Me entenda querida, não há frieza em mim. É que estou livre. Livre das convenções que nos foram impostas pela vida. Livre de ter que parecer com algo ou alguém que não sou. Quebrei as máscaras que usamos para nos proteger. Não há proteção em mim. Não ha muro de arrimo, barreiras ou trincheiras. Tudo em mim é uma exposição fatal. E quando naquela tarde eu disse que era você, de fato era. E quando você disse sorridente que afinal podíamos ser bons amigos apesar do imenso amor que te dedicava, eu entendi. Por isso não vou cantar minhas canções de amor preferidas. Minhas cartas melosas com aquelas poesias baratas que colecionei, vou rasgá-las. É a leveza da dor que me carrega livre.
Um homem livre que não dorme a noite, pois agora odeia até mesmo a menor hipótese de um sonho romântico.

Leometáfora

Transformações estúpidas

Sobre a carga do mundo descansa um coração sonhador. Poesia em que as palavras já foram rainhas hoje sozinhas não encantam mais ninguém. Porque meu coração fora outrora uma torre destemida, hoje destruída soldados invadem meu coração. Quem sabe é a minha natureza que me engane e não você. Quem sabe meu amor é que esteja ultrapassado? Repouse na história antiga. Mito. Relíquia.
E não o seu que se perdeu em transformações estúpidas.

Leometáfora

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Abismo


Então é essa a cor do abismo? Este tom enegrecido de bordas cinzentas? E esse deve ser o som. Esse silêncio roubado do cavalheiro obscuro da morte. De inúmeras maneiras o abismo me perseguiu. Estava lá quando minha esperança de amar se perdeu. Fora trazido com vento dessas palavras torpes que dizemos uns aos outros quando nos enchemos de orgulho. Depois veio com o fracasso de algum sonho. Contornei-o como pude. Sai-me bem então. Mas fora enganado por ele. Não era tão seguro andar a esmo ao seu redor. Hoje sei que não vou cair. E o preço de tudo isso foi a minha sequidão
e esse olhar embaçado e sem vida.

Leometáfora

Todo escritor

Todo escritor deve descrever o seu quarto. As quatro paredes onde se reflete. Se tiver livros na estante, deve enumerá-los. Talvez um perfume de fragrância emadeirada flutue absorto entre a poeira e a escuridão. Ha apenas uma luz que o leva a pensar sempre em unidade. E ele a mantém acesa só o tempo necessário
para não sorrir de sua solidão.

Leometáfora

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Para Ju Gadelha



Eu queria que desaprendesses. Que faltasses na escola. Que não fosse carnaval. Que as tuas sandálias rompessem. Que teus confetes fossem todos de uma cor. Que a tua lancheira trouxesse vinho de manhã. Que esse teu amor fosse um segundo. Um lampejo do delírio no avexo, e eu trouxesse o verdadeiro, o imorredouro. Então queria que teu nome fosse amora. Que eu deitasse ao teu lado sem sentir o tempo. Queria que tu me beijasses e me roubasses alguma saudade. Que eu de longe te cheirasse. Que tua voz fosse uma espécie de radar biônico para que eu não pudesse mais duvidar. Que eu te esperasse na terça, e nos dias da semana que sobrassem. Que eu fosse um poeta, mesmo que caduco, só para te ninar. Eu queria tanta coisa. Tanta coisa ao seu lado. Esses meus últimos anos. Esses meus pensamentos. Eu queria que você acordasse tarde. Que jogasse as rosas no chão e teus pés manchassem com o vermelho o azulejo dos dias. Eu queria que tomasses essa minha revolta por não ter te conhecido antes, por amor. Porque essas tuas mãos trêmulas. Esses teus olhos marejando por essa tua boca cheia de saliva, é o que acontece.
Toda vez que se devora o humano que se esconde dentro de nós.


Leometáfora

...

Estou velho e cego desses caminhos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Encantados

Somos assim encantados. De luzes e perfumes tênues. Trazemos sempre menos peso a cada adia porque a felicidade nos espera. Ou pelo menos esperemos que seja assim. Temos a coragem dos que nunca desistem. Porque afinal que alternativa teremos com a descrença? É o amanha que guarda a nossa vitória. É no vindouro que nos reconstruiremos. Não damos ouvidos aos nossos defeitos. Nossas cicatrizes não nos importam mais. Estamos em acordo com o sol. Fluiremos a doçura de írmos além do destino.

Leometáfora

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cotidiano

Vaza a luz pela fresta de uma janela. É dia. Atrevo-me e levanto. De um pouso azul tudo parece se revelar. O quarto tem um desânimo que o asseio e harmonia disfarçam bem. Estou só. As cores infantis desbotaram da parede do meu peito. Já não me pretendo livre. Teço nas vagas das horas, doces lembranças de teus beijos. A fuga dos sonhos irrealizáveis. Como alguma coisa. Me encho de estímulo com café. Não fumo. Tenho medo de perder algum dos dias destinados a te esperar. Sigo para trabalho. O birô estático, como sempre estivera, me convida. Escrevo,escrevo,traduzo. O colóquio de certezas põe-me a filosofar. Aonde estou preciso ouvir alegrias e tristezas das pessoas. Com isso tenho aprendido bastante. Já podes voltar, acredite, amadureci. Arquivos os projetos concluídos. Examino pendências. A tarde nada como. Últimos ajustes. Minha mesa está limpa. Tudo pronto. Volto dormente. Sem grandes tumultos. O ônibus faz sua linha silenciosa para o campo. Moro num lugar tranqüilo. O que conheço sobre caos brota do meu interior. Já casa, tomo um banho frio. Como alguma coisa. Evito a cafeína à noite. Preciso dormir. Quem sabe seja o sonho de hoje que trará você?

Leometáfora

Verdade

Não és meu poema. És bela e sadia, mas não fazes parte da minha poesia.

Estou só

Estou só. A gruta obscura da esperança esconde seu monstro devorador. Meus dias foram aniquilados por ele. Minhas unhas desgastadas de cavar a alma a procura de sonhos, caíram. Já posso olhar pra você e não sentir meu peito confrangido. Na verdade devo estar morto. De alguma forma espetacular, morto. Sem o crime da desistência. Apenas falido em toda e qualquer essência. E esse terrível monstro é a opção não experimentada. A porta esquecida. A saída não escolhida.

Recomeço

Vou cortar os cabelos, aparar as unhas, refazer a barba. Escolhi a melhor roupa. Deve ser hoje. Quase não percebo quanto me repito. Quanto me confundo, me limito. Sou soberano em minha solidão. A janela da sala, esse meu espelho do mundo, me enche de esperanças. Deve ser hoje. A promessa de uma tentativa derradeira. Como foi ontem e como tem sido durante quase todo tempo. A possibilidade de tudo da certo me alimenta. Uma última olhada na casa. Tudo na exatidão caótica de costume. Calço os sapatos. Reviso os cheiros do meu corpo. Pronto. Estou na rua. Estou me expondo. Eles já não olham como antes. Já não trocam o bom dia em alegres acenos. É uma enorme tela em metal frio. Riscada com uma faca cega e egoísta. Contudo ao lembrar de tuas mãos me ensinando, eu insisto ante as caras amarradas, ante o virar de olhos em desassossego. Me tornei assim também? Meus olhos marejam. Vou gritar para alguém. Uma voz sufocada me abandona e a alcança. A moça sorriu e retribui com um gesto ensaiado antes de entrar no ônibus. Ajudo uma senhora com algumas sacolas. Ela custou a me permitir o peso de suas compras. De certo teve medo de mim. Do meu rosto ansioso de me misturar. De fazer parte desse tempo que neguei ao meu corpo. Mais um sorriso.
Outro presente para meu coração fatigado. Acho que estou errado. Ainda sei amar. Ainda posso caminhar pelas ruas e ser livre. Volto pra casa, satisfeito. Amanhã vou tentar mais um pouco. Ir adiante. Mais alguns passos. Quem sabe uma nova esquina? Tentar outros gestos. Outras pessoas. Outras vontades. Então vou me tornar uma pessoa melhor que hoje. E depois de amanhã ainda melhor. E a liberdade me saltará nas verdades que escrever pra você. A liberdade me guiará novamente ao teu caminho, no momento que estiver apto a te acompanhar.

Leometáfora