quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Todo escritor

Todo escritor deve descrever o seu quarto. As quatro paredes onde se reflete. Se tiver livros na estante, deve enumerá-los. Talvez um perfume de fragrância emadeirada flutue absorto entre a poeira e a escuridão. Ha apenas uma luz que o leva a pensar sempre em unidade. E ele a mantém acesa só o tempo necessário
para não sorrir de sua solidão.

Leometáfora

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Para Ju Gadelha



Eu queria que desaprendesses. Que faltasses na escola. Que não fosse carnaval. Que as tuas sandálias rompessem. Que teus confetes fossem todos de uma cor. Que a tua lancheira trouxesse vinho de manhã. Que esse teu amor fosse um segundo. Um lampejo do delírio no avexo, e eu trouxesse o verdadeiro, o imorredouro. Então queria que teu nome fosse amora. Que eu deitasse ao teu lado sem sentir o tempo. Queria que tu me beijasses e me roubasses alguma saudade. Que eu de longe te cheirasse. Que tua voz fosse uma espécie de radar biônico para que eu não pudesse mais duvidar. Que eu te esperasse na terça, e nos dias da semana que sobrassem. Que eu fosse um poeta, mesmo que caduco, só para te ninar. Eu queria tanta coisa. Tanta coisa ao seu lado. Esses meus últimos anos. Esses meus pensamentos. Eu queria que você acordasse tarde. Que jogasse as rosas no chão e teus pés manchassem com o vermelho o azulejo dos dias. Eu queria que tomasses essa minha revolta por não ter te conhecido antes, por amor. Porque essas tuas mãos trêmulas. Esses teus olhos marejando por essa tua boca cheia de saliva, é o que acontece.
Toda vez que se devora o humano que se esconde dentro de nós.


Leometáfora

...

Estou velho e cego desses caminhos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Encantados

Somos assim encantados. De luzes e perfumes tênues. Trazemos sempre menos peso a cada adia porque a felicidade nos espera. Ou pelo menos esperemos que seja assim. Temos a coragem dos que nunca desistem. Porque afinal que alternativa teremos com a descrença? É o amanha que guarda a nossa vitória. É no vindouro que nos reconstruiremos. Não damos ouvidos aos nossos defeitos. Nossas cicatrizes não nos importam mais. Estamos em acordo com o sol. Fluiremos a doçura de írmos além do destino.

Leometáfora

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cotidiano

Vaza a luz pela fresta de uma janela. É dia. Atrevo-me e levanto. De um pouso azul tudo parece se revelar. O quarto tem um desânimo que o asseio e harmonia disfarçam bem. Estou só. As cores infantis desbotaram da parede do meu peito. Já não me pretendo livre. Teço nas vagas das horas, doces lembranças de teus beijos. A fuga dos sonhos irrealizáveis. Como alguma coisa. Me encho de estímulo com café. Não fumo. Tenho medo de perder algum dos dias destinados a te esperar. Sigo para trabalho. O birô estático, como sempre estivera, me convida. Escrevo,escrevo,traduzo. O colóquio de certezas põe-me a filosofar. Aonde estou preciso ouvir alegrias e tristezas das pessoas. Com isso tenho aprendido bastante. Já podes voltar, acredite, amadureci. Arquivos os projetos concluídos. Examino pendências. A tarde nada como. Últimos ajustes. Minha mesa está limpa. Tudo pronto. Volto dormente. Sem grandes tumultos. O ônibus faz sua linha silenciosa para o campo. Moro num lugar tranqüilo. O que conheço sobre caos brota do meu interior. Já casa, tomo um banho frio. Como alguma coisa. Evito a cafeína à noite. Preciso dormir. Quem sabe seja o sonho de hoje que trará você?

Leometáfora

Verdade

Não és meu poema. És bela e sadia, mas não fazes parte da minha poesia.

Estou só

Estou só. A gruta obscura da esperança esconde seu monstro devorador. Meus dias foram aniquilados por ele. Minhas unhas desgastadas de cavar a alma a procura de sonhos, caíram. Já posso olhar pra você e não sentir meu peito confrangido. Na verdade devo estar morto. De alguma forma espetacular, morto. Sem o crime da desistência. Apenas falido em toda e qualquer essência. E esse terrível monstro é a opção não experimentada. A porta esquecida. A saída não escolhida.

Recomeço

Vou cortar os cabelos, aparar as unhas, refazer a barba. Escolhi a melhor roupa. Deve ser hoje. Quase não percebo quanto me repito. Quanto me confundo, me limito. Sou soberano em minha solidão. A janela da sala, esse meu espelho do mundo, me enche de esperanças. Deve ser hoje. A promessa de uma tentativa derradeira. Como foi ontem e como tem sido durante quase todo tempo. A possibilidade de tudo da certo me alimenta. Uma última olhada na casa. Tudo na exatidão caótica de costume. Calço os sapatos. Reviso os cheiros do meu corpo. Pronto. Estou na rua. Estou me expondo. Eles já não olham como antes. Já não trocam o bom dia em alegres acenos. É uma enorme tela em metal frio. Riscada com uma faca cega e egoísta. Contudo ao lembrar de tuas mãos me ensinando, eu insisto ante as caras amarradas, ante o virar de olhos em desassossego. Me tornei assim também? Meus olhos marejam. Vou gritar para alguém. Uma voz sufocada me abandona e a alcança. A moça sorriu e retribui com um gesto ensaiado antes de entrar no ônibus. Ajudo uma senhora com algumas sacolas. Ela custou a me permitir o peso de suas compras. De certo teve medo de mim. Do meu rosto ansioso de me misturar. De fazer parte desse tempo que neguei ao meu corpo. Mais um sorriso.
Outro presente para meu coração fatigado. Acho que estou errado. Ainda sei amar. Ainda posso caminhar pelas ruas e ser livre. Volto pra casa, satisfeito. Amanhã vou tentar mais um pouco. Ir adiante. Mais alguns passos. Quem sabe uma nova esquina? Tentar outros gestos. Outras pessoas. Outras vontades. Então vou me tornar uma pessoa melhor que hoje. E depois de amanhã ainda melhor. E a liberdade me saltará nas verdades que escrever pra você. A liberdade me guiará novamente ao teu caminho, no momento que estiver apto a te acompanhar.

Leometáfora

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

LEMBRA (LETRA DA MÚSICA QUE ESTA NO CD POESIA DA MANHÃ)

Lembra de toda promessa, dos sonhos de outrora, do sol que nos cobre
Que ainda temos força, que ainda podemos ver o brilho das cores de nossa esperança.
E eu só hoje percebo que foi a saudade brincando de medo, o que nos fez desistir do nosso caminho traçado em certezas, e tudo se perdeu.
Então, se ele conta sempre a mesma história, se ele te agradece por não ver, se ele desperdiça toda hora o que eu guardaria com prazer, se ele não entende o teu carinho, assim, tão incondicional, só mais uma vez, me diga por que, que contradição! Não vê que ainda é tão jovem, que ainda pode tanto. É só pedir, pra ter todos os meus beijos, guardados com o tempo, esperando você.

LEOMETÁFORA

domingo, 11 de janeiro de 2009

Hoje amanheci com a sensação de não te merecer. Não fazer parte de teu diário das horas. Não contar presença em teu sofá da sala. Acordei e decidi que quero não ser notado quando me esgueirar pelas paredes temendo as sombras de nossos momentos românticos. Quando por descuido meu, perceberes meu declínio, reza por dois dias seguidos, e depois esqueça. É o pago por inflar teu ego em minhas palavras. Mas não se sinta culpada. O desvio já estava lá quando você me acompanhou na estrada. Então porque me engano? Não floreio as tuas esquivas e adubo a esperança? É que só tenho trato com a dor. De uma maneira homicida, eu espero que ela venha. A dor em seu cavalo baio de armadura.
Em sua nau nebulosa e flutuante.

Leometáfora
Mesmo que eu te goste em segredo,ainda assim será amor.E aqueles que não virem meu olhar a contemplá-la, poderão supor que não a quero. Porque viverei calmamente os meus dias restantes. Sem alardes ou desânimos. Apenas com um incômodo mínimo que a saudade impõe. Cantarei as canções dessa paixão e às vezes escreverei alguma carta para nunca entregar. Pois não precisamos disso. Tu e eu, já teríamos vivido essa história, se fôssemos loucos o bastante para empreendê-la. Do teu lado sei que estarás bem, crente do caminho que escolhestes e da tua verdade. Mas não se fie em paixões eternas porque essa seria assim, e não dourou. Vale mais algum carinho disperso na noite, em alguém que nem de longe te faça lembrar de mim. Viva alegre, pois vê-la sofrer me trará uma morte prematura e só tenho essa vida para admirá-la. Se guardar algum poema meu, leia-o pouco. Não o mostre a ninguém. Para que não se apresente de novo velhas vontades e sentidos. Esse meu amor em silêncio faz bem ate para os anjos, na alva calma de suas nuvens. E talvez, agora que me dei conta, possamos no futuro viver de algum modo juntos.
Porque o corpo não tem o poder de aprisionar a alma por muito tempo.

Leometáfora

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Escolher entre ficar e partir, quem nunca teve essa dúvida? Entre o previsto e o desconhecido? Quanta diferença há em se olhar da varanda para rua e o seu oposto. Não existe um cálculo preciso para se fazer quando se decide tentar outro caminho.

Leometáfora
Quem te ensinou a colher espinhos? A catar no futuro sombras e tempestades? Que o maduro é podre se curtido no sereno? Que o não chorar é ser feliz? Quem aliviou você do peso da saudade, concretizando as diferenças entre nós? Quem marcou o dia de teu amor? A hora de teu prazer? O segundo do teu gozo? Quem limitou você de silêncio? Quem saqueou você de você e te fez outra, morta, despida de carne e esperança, quase sem coração?


Leometáfora
Um homem só é livre, quando ele pode escolher entre viver e morrer. Quando seus dias findados o amarguram, e ele bebe a cicuta sorrindo. Mas aquele que tem vínculos nessa terra desumana, não é livre. Que o homem sinta-se feliz em ajudar os outros. Que isso o alimente. Mas que possa escolher à hora de deixar o palco quando não consegue mais encenar. Quando o peito não quiser mais gritar porque se viu inútil em seus lamentos. Hoje bebo o silêncio. Meus pés esqueceram por onde caminhar. Minha poesia me olha desdenhosa.


Leometáfora
Ah são todos tolos,mais que tolos. Todos livres. Livres de um único amor a vida inteira. Livres da saudade. Do compromisso. Da importância. Cheios da casualidade, do improviso, do momento fugidio que não se procura, apenas se aproveita de consciência tranqüila. Ah são todos tolos. Até tolos, mas bem livres. Das loucuras de um beijo que dura o tempo da boca beijada.
Das lembranças de pele que impregna a alma com seu cheiro que não se disfarça.

Leometáfora